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O protagonismo dos usuários de drogas nas estratégias de atenção

Prevenção, tratamentos para o consumo problemático, redução de danos e integração social foram debatidos no painel sobre “Atenção integral ao usuário de drogas”. Que propostas existem para melhorar o acesso e a qualidade dos serviços? Quais são os desafios? Aqui, as experiências do Chile, Colômbia, Brasil e a voz dos próprios usuários de drogas.

Portas abertas, proximidade e território. Estas três palavras atravessaram todas as apresentações do painel “Atenção integral ao usuário de drogas” na manhã de sexta feira27, durante o debate protagonizado por Mauricio Zorondo, integrante da Rede Americana de Intervenção em Situações de Sofrimento Social (RAISSS) representação do Chile; Inés Elvira Mejia Motta, coordenadora da unidade de Gestão da política Nacional para a Redução do consumo de substancias Psicoativas da Colômbia; Denise Serafim, representante do Departamento de DST, AIDS e hepatites virais do ministério da saúde do Brasil e Domiciano Siqueira, representante da Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos (ABORDA), com a mediação de Jorge Hernández Tinajero, presidente do Coletivo por uma política integral às drogas (CUPIHD).

Chile: diminuir a distância social

No Chile, desde a Escola Nacional de Estudos e Formação na Abordagem das adicções e Situações críticas associadas (EFAD) foi realizado um estudo sobre o acesso aos serviços de saúde de usuários de drogas que revelou que 80 % dos usuários precisavam de atenção não estava recebendo. Maurizio Zorondo, secretário executivo da instituição responsável pelo estudo disse que o problema central era que “O sistema é distante às pessoas e com muitos requisitos para poder acessar ao serviço”.

Para reverter esta situação desenvolveram uma estratégia com três critérios: 1) diminuir a distância social; 2) deixar de trocarmos problemas e avaliar quais recursos existem na comunidade e 3) se situar no lugar do outro, e “não tentar mudá-lo e sim acompanhá-lo na busca de suas próprias soluções para diminuir seu sofrimento”, explicou. O trabalho da equipe desde a perspectiva RAISSS consiste em “abandonar a lógica de que as pessoas virão ao centro, trabalhar na rua se sentar nas esquinas a conversar com as pessoas e ativar toda a comunidade para estabelecer redes sociais onde se apóiam uns aos outros”.

Colômbia: diminuir a demanda

79,2 por cento do orçamento para temas de drogas na Colômbia são destinados a reduzir a oferta (a luta contra o narcotráfico) e apenas 2,8 por cento a reduzir a demanda (estratégias de atenção). Assim ressaltou Inés Elvira Mejía Motta, quem além de coordenadora da dependência à qual é responsável da assistência, é assessora do Ministério de Proteção Social desse país.

Em 2006 foi foi definida a atenção a usuários de drogas como um assunto de saúde mental e prioridade de saúde pública “fato que trouxe recursos econômicos e sociais para ir às comunidades e oferecer tratamento”, explicou. A abordagem é similar à apresentada pelo Chile: respeitar a autonomia do usuário de drogas e fortalecer as redes sociais. Uma particularidade do país é que, o porte para consumo pessoal, descriminalizada em 1994, voltou a ser penalizado, a partir do governo do ex-presidente Álvaro Uribe, “o que resulta uma barreira de aceso à atenção”, concluiu.

Brasil: diminuir o estigma

Por que falha a atenção a usuários de drogas? Com essa pergunta como eixo, o Departamento de DST, AIDS e Hepatite Virais do Ministério da Saúde do Brasil fez um diagnóstico que revelou, entre outras dificuldades, o pudor de ambas as partes, “entre profissional que não se atreve a perguntar e o usuário que não se atreve a dizer que bebe álcool ou outras substâncias”, disse Denise Serafim, representante do organismo.

A partir de reconhecer esta dificuldade, começaram uma estratégia que inclui: atenção à usuários de drogas em serviços básicos de saúde durante 24hs e não das 8 às 17 como era antes, consultórios de rua nos bairros e nas palavras da funcionária “outras estratégias para aproximar o profissional à cena real”.

Usuários de drogas: tratamentos de portas abertas

“Há diversos pontos de vista sobre o usuário de drogas: a saúde vê o uso de drogas como uma doença, a justiça como um delito e a religião como um pecado. Minha proposta é que a cidadania veja o uso de droga como um direito”, disse Domiciano Siqueira, representante da associação brasileira de redutoras e redutores de danos (ABORDA) a abrir sua apresentação. “O corpo é de cada um de nós e tudo que acontece da pele pra dentro é nosso”, reclamou.

Sobre as exposições de seus colegas de mesa, disse: “Ouvi muitas conferencias falando que o tratamento tem que ser digno, próximo, mas para mim o tratamento tem que ter, em resumo, as portas abertas, sem condições”.

E, para encerrar, realizou uma reflexão sobre a legalização do porte para consumo próprio desde um ponto de vista pouco freqüente: “Eu não sou contra, mas é importante pensar no que vai acontecer quando a legalização das drogas for um fato e os milhões de pessoas que vivem de vender no varejo fiquem desempregadas”.

No encerramento da mesa, seu mediador Jorge Hernández Tinajero, do CUPIHD, propôs revisar o protagonismo que é dado aos usuários e usuárias de drogas nas estratégias de atenção, como caminho indispensável “para alcançar uma atenção desde os direitos humanos e pelas decisões de cada individuo”.